
INDESCRITÍVEL AMOR
Quisera te contar,
Quisera descrever este amor indescritível
Mas não posso, não posso...
Quem sou?
Não sei, não há descrição...
Sou amor,
amor sem definição ...
Cora Maria
Este texto apresenta idéias acerca do amor “desconhecido”, daquele sentimento que as pessoas declaram sentir, viver ou morrer, sem que saibam dizer claramente como e por que. Inicio pelas idéias de Saramar (online) que retrata em um estilo poético o quão complexo é abstrair do amor o que sobre ele dizer:
QUEM SABE DO AMOR?
Quem sabe o amor seja um rio
Quem sabe o amor seja um rio
e suas pontes levando,
de um lado para o outro lado,
a solidão, o vazio de quem se cansou
de só ser?
Quem sabe o amor seja uma queixa
e sua fonte derramando dos olhos
o que antes fora a certeza
de para sempre ser?
Quem sabe do amor,
quem sabe?
Para Marion (2003) o ser humano vive a experiência amorosa como se soubesse conceituar o amor, todavia ao tentar defini-lo somente se remete as próprias experiências. A filosofia, a poesia, o romance, a psicanálise, a teologia não mais dão conta de conceituar o amor, e isso porque cada qual faz a leitura mais estrita e possível dentro de suas interpretações, que ora passam pelo ato de amar, ou de dizer sobre esse ato, ora por narrar uma experiência amorosa social, cultural e pública, sem explicar o que de comum há com os demais sujeitos sociais, ou ainda desvia o sentido que a paixão galga na vida humana e, por fim, constata a falta de palavras para referir-se aos fenômenos conscientes e inconscientes que habitam em todos nós e se expressam nos desejos.
Indago se assim como a filosofia um dia se nutriu do repertório do amor, vez que amava para compreender e saber, até que o esqueceu e o renegou, elegendo o poder como um novo objeto de desejo, não o faz semelhantemente os homens e as mulheres movidos por interesses individualistas, de maneira que a afetividade seja “denegada e comprimida em nosso processo civilizatório?” (ARAÚJO, 2008, p. 86). Restariam, então, somente as disposições eróticas indistinguíveis uma das outras, porque o conceito de amor tornou-se informulável e porque antes de amar é preciso ser? Ou seria mais humanizador defender que o “amor se ergue de uma racionalidade erótica”, logo o ser não o precede? (MARION, 2003, p. 4-5).
Marion externa a lógica que explica a última indagação: [...] “nós somos à medida que nos descobrimos, sempre já tomados na tonalidade de uma disposição erótica – amor ou ódio, infelicidade ou felicidade, prazer ou sofrimento, esperança ou desesperança, solidão ou comunhão[...]” (2003, p.5). Assim, na proporção que o ser humano exercita a racionalidade erótica, e estabelece uma dinâmica para falar sobre o amor, e a intensidade de amar acompanha a produção do discurso amoroso, ele pode inclusive não alcançar o conceito de amor, mas certamente saberá dele um tanto qualquer. É que o conceito não se absolutiza no amor, de maneira que pessoas experimentam em diversos momentos da vida sentimentos comuns, porém singulares, de maneira que não se torna possível a generalização.
É importante saber que pode haver alguma dificuldade para que uma pessoa consiga identificar e definir um fenômeno que se apresenta em sua própria vida, a tomada de consciência, na maioria das vezes, não é instantâneo e, além disso, os significados atribuídos, principalmente no caso do amor, por se ligarem a aspectos de fórum íntimo, também envolvem componentes primordiais da vida, afetados pelos fatores físicos e psicológicos, social e cultural, e podem provocar outros sentimentos ambíguos e motivos para constrangimentos. Então, a condição que o ser humano possui frente ao amor é o resultado de um processo de experiência amorosa – amar e ser amado, está amando, jamais ter sido amado - e de sua dimensão simbólica, que significa e re-significa a vida, e que mesmo indaga, em diferentes momentos: Qual é o significado do amor?
O que posso dizer a seu respeito?
O que posso dizer a seu respeito?
O AMOR EM PROCESSO OU O PROCESSO DO AMOR?
A abrangência e a extensão do amor assim como suas diferentes intensidades na vida das pessoas constituem um dos desafios para compreendê-lo. Dito de outra maneira, como o amor interfere na vida de todas as pessoas, suas interpretações e orientações dependem das experiências pessoais vividas. Silva (2003) defende que o amor é um processo que depende das características individuais das pessoas, mas que também compreende sua construção humanística, adquirida pela sabedoria decorrente da práxis frente à própria existência.
A abrangência e a extensão do amor assim como suas diferentes intensidades na vida das pessoas constituem um dos desafios para compreendê-lo. Dito de outra maneira, como o amor interfere na vida de todas as pessoas, suas interpretações e orientações dependem das experiências pessoais vividas. Silva (2003) defende que o amor é um processo que depende das características individuais das pessoas, mas que também compreende sua construção humanística, adquirida pela sabedoria decorrente da práxis frente à própria existência.
Para ela o amor deve ser considerado processo porque o comportamento amoroso evolui em relação às outras emoções, ficando o tempo e o acúmulo de experiências responsáveis pela evolução que conduz as pessoas a sentirem e a observarem, decidirem e avaliarem seus comportamentos, aperfeiçoando-os, modificando-os, singularizando-os conforme suas dificuldades, ansiedades, certezas, enfim, sua trajetória de vida. Ela também admite que para amar seja preciso experimentar a atração física, o desejo, a paixão, o amor, outros sentimentos que envolvem a vida amorosa e nos ensinam a vivê-la. Por outro lado, muito embora o amor enquanto processo promova um amadurecimento individual, em alguns casos pode provocar sua própria descrença. Há pessoas que o julga apenas uma palavra banalizada, sem poder para transformar o sujeito e a sua realidade, enquanto outras pessoas atribuem ao amor uma grande responsabilidade que gera tantas outras quantas for a extensão e a intensidade dos vínculos amorosos, de maneira que melhor mesmo é não assumi-lo.
O amor pode ser considerado um processo porque está presente na vida desde a concepção, compreendê-lo, entretanto, implica em prestar atenção às relações de uns com os outros, e sobremodo às experiências frente ao fenômeno. É desse modo que o processo do amor pode contribuir lenta e gradualmente para a evolução particular do ser humano, e isso compreende uma série de aprendizados, ações e interpretações que configuram o universo de sentidos e significados de cada pessoa (SILVA, 2003). Sendo, pois, o amor um processo, não se confunde com a avalanche de sentimentos que participam das relações interpessoais e se torna de difícil distinção?
UMA TENTATIVA DE DEFINIR O AMOR
Para Aranha (1992) o amor advém ou não de uma paixão, guarda características muito próprias, como a tranqüilidade, ternura, aceitação do outro, é um sentimento mais duradouro que se desenvolve dentro de limites e da cotidianidade, diferentemente daqueles que brotam de situações extraordinárias. O amor é submetido a provas de verdades, como o distanciamento da pessoa amada, a confiança, a renúncia, a cumplicidade, a equidade, o equilíbrio dos interesses, motivações e expectativas individuais na relação amorosa. Mas os impulsos eróticos seriam providos de uma racionalidade capaz de proteger o amor dos arroubos do desejo, mantendo-o sob a vigilância da razão, os padrões culturais e sociais e as rédeas da educação?
Para Aranha (1992) o amor advém ou não de uma paixão, guarda características muito próprias, como a tranqüilidade, ternura, aceitação do outro, é um sentimento mais duradouro que se desenvolve dentro de limites e da cotidianidade, diferentemente daqueles que brotam de situações extraordinárias. O amor é submetido a provas de verdades, como o distanciamento da pessoa amada, a confiança, a renúncia, a cumplicidade, a equidade, o equilíbrio dos interesses, motivações e expectativas individuais na relação amorosa. Mas os impulsos eróticos seriam providos de uma racionalidade capaz de proteger o amor dos arroubos do desejo, mantendo-o sob a vigilância da razão, os padrões culturais e sociais e as rédeas da educação?
O amor em Freud foi investigado desde o início da psicanálise, quando um caso de histeria lhe forneceu as pistas de que aquela mulher dizia com o corpo sobre sexo, amor, ódio, culpa o que não sabia dizer com as palavras, instaurando o lugar da psicanálise como o “lugar de uma relação de amor” (BITTENCOURT, 1993, p 2). Marcada pelo amor e em sua trilha a sexualidade e vice-versa, a psicanálise defende que tal como a pulsão, cuja meta é a satisfação, o amor tem como meta encontrar-se, aja vista que as histórias dos analisandos circulam em torno de “atividade e passividade, sadismo e masoquismo, paixão e recato, procura e espera, amar e ser amado”. O amor que contem e em tudo e em todos está contido, relacionado, imbricado, implicado, constituído, é o espectro maior da sexualidade, como se observa a seguir:
A energia de Eros (libido) faz referência a tudo o que pode sintetizar-se como amor, incluindo: o amor a si mesmo, aos pais, aos filhos, à humanidade, ao saber e aos objetos abstratos. Nele convergem pulsões parciais de ternura, ciúme, inveja e desejos sexuais orientados para os mesmos objetos. O amor é, assim, apresentado como uma ampliação do conceito de sexualidade a sexualidade humana [...] (BITTENCOUR, 1993, p.2).
Além dessa ampliação e não obstante a ela, Freud também estuda o amor transferencial, nesse caso enfatizando o apego ao sintoma, vez que o amor pelo objeto (o analista) seria apenas uma estratégia de se manter arraigado aos sintomas, impedindo o próprio tratamento, e o amor narcísico centrado em um ideal de amor, em alguém que a própria pessoa gostaria de ser. Ampliando essa complexidade sobre o conceito do amor, Lacan afirma que “o amor nasce da falta constante que busca a completude de um amor perdido, desejando sempre reencontrá-lo”, todavia o sujeito não somente permanecerá na falta, mas também na falta se estruturará (SAMPAIO E MATTOS, 2006, p. 1).
Para Comte-Sponville (1995) o amor nasce da sexualidade, mas a ela não deve ser reduzido como faz Freud, porque o amor perfaz a vida privada e pública, a familiar e profissional, valorizada segundo o amor que nelas depositamos. Ele assim indaga:
Por que seríamos egoístas, se não amássemos a nós mesmos? Por que trabalharíamos, se não fosse o amor ao dinheiro, ao conforto ou ao trabalho? Por que a filosofia, se não fosse o amor à sabedoria? E, se eu não amasse a filosofia, por que todos estes livros? Por que este, se eu não amasse as virtudes? E por que você o leria, se não compartilhasse algum desses amores? (p.242).
A idéia defendida é que o amor não se comanda, ele comanda inclusive a vida moral e ética, porém desde que não seja um dever, um mandamento, sob pena de se constituir um “amor prático, uma lei, e o amor não é um mandamento, mas um ideal, afirma ele, acrescentando que o amor nos torna virtuoso”. Para Lévinas (ONLINE) o amor é a responsabilidade ética pelo outro, e nos coloca diante das suas fraquezas e necessidades, da sua nudez e esplendor, com suas demandas urgentes, na medida das possibilidades, mas ressaltando sempre que as necessidades do outro não são indiferentes. O amor é bondade, logo, virtude, pois no amor há um cuidar recíproco em lugar da dominação, da violação.
Esse amor que se categoriza é mais uma tentativa de definir-se. Os gregos já o pensavam, e a filosofia, como nos lembra Marion (2002) se ocupava em sua descoberta, admitiam que o amor nos fizesse pensar e que em sua base estava o espanto e o encantamento. Para a filosofia clássica o amor é um conjunto de sentimentos que guardam complexidades, são eles: Eros, Philia e Ágape. Amor-Eros é sensual, possessivo, homenageado por uma mulher que se prostituia e que ao invés de sangue lhe oferecia o ato sexual como um ato religioso; é o amor do desejo do corpo do outro e de tudo que trouxesse alegrias e prazeres carnais, mas é também, e, sobretudo, o desejo de saber o que existe e se vê para além dos corpos.
O Amor-Ágape é sagrado, imaculado, um amor que se volta para o total benefício do outro, é a fonte do perdão, da renúncia e abnegação, é amor incondicional, altruísta, é um amor pela natureza, concebe que o mundo é a morado do homem no cosmos, e como tal obedece a uma ordem da natureza e da cultura e potencializa tudo que existe. Entre Ágape e Eros, um terceiro tipo de amor foi identificado pelos gregos, o Amor-Philia, originado da simpatia mútua e desenvolvido na fidelidade, Philia é uma amizade o passo à frente do desejo, aspira chegar ao bem, porém a racionalidade exerce força sobre este amor que ama além do humano, ama também o abstrato e o inanimado, como amar certos ideais como a liberdade, a verdade ou mesmo o amor.
Esses amores que somente se capturam nas relações, serão independentes, distintos, inconciliáveis? O amor não seria constituído dessas dimensões psicológicas amorosas? O trânsito entre essas instâncias/dimensões não seria o que acontece com mais freqüência e dentro da normalidade? Finalizando a tentativa de definir o amor ou quem sabe mais humildemente tentar compreendê-lo, fico com Beck (2001, p.40) quando diz que o “amor é uma procura de si, um desejo de reencontro autêntico com o outro, contra o outro, no outro. Isto se atinge na troca dos corpos, nos diálogos, na concessão, na confissão que são recebidas e divididas reciprocamente”
BIBLIOGRAFIA
ARAÚJO, Miguel Almir Lima de. Os sentidos da sensibilidade – sua fruição no fenômeno do educar. Salvador: EDUFBA, 2008.
ARANHA, Maria Lúcia A., MARTINS, Maria Helena P. Temas de Filosofia. São Paulo: Moderna,1992.
BECK, Urich. A religião secular do amor. Revue de Philosophie et de sciences sociales, Paris, PUF, n. 2, p. 29-44, 2001. Trad. RABINOVICH, Elaine Pedreira.
BITTENCOURT, Valdívia Olívia. A linguagem interminável dos amantes. Jornal do Federal, nº 34, 1993.
BRAZ, Ana Lúcia Nogueira. Origem e significado do amor na mitologia greco-romana. Estudos de Psicologia I Campinas I 22(1) I 63-75 I janeiro - março 2005.
COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno tratado das grandes virtudes. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo, Martins Fontes, 1999 lembrar que foi apenas o capítulo 18 MARION, Jean-luc. O fenômeno erótico: seis meditações. Trad. RABINOVICH, Elaine Pedreira. Texto mimeo. 2002.
SAMPAIO, Luciano Chaves e MATTOS, Maria Afonsina Ferreira. Platão e Lacan: amor e Falta. Anais da 58ª Reunião Anual da SBPC - Florianópolis, SC - Julho/2006.
SILVA, Rosana Rodrigues Gomes da. O amor e seus mo(vi)mentos. Tese de doutorado, Faculdade de Educação/UNICAMP, 2003.
Quem sabe do amor? Disponível em: http://www.overmundo.com.br/banco/quem-sabe-do-amor. Acessado em 23.5.2009.
Indescritível amor. Disponível em .http://coramaria.com.br/indescritívelamor.htm, acessado em 29.05.2009.
Tudo o mais – amor e utopia. Disponível em http://luis-tudomais.blogspot.com/2007/04/amor-e-utopia-emmanuel-lvinas.html, acessado em 29.05.20.09.
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